
Finalmente montanhas, desde a Africa do Sul que não via uma elevação que merecesse esse nome, agora sim, quanto mais avanço Namibia adentro mais aparecem montanhas salpicadas aqui e ali. Tinha previsto seguir pelo norte, bem junto da fronteira de Angola, delimitada pelo rio Kunene, mas uma chuva forte e nuvens negras fizeram-me mudar de ideias.

Sigo para a Reserva de Etosha, a mais importante do pais, o Kruger da Namibia. Já sei que é cara, que não deixam entrar motos e que provavelmente vou gastar mais do que o habitual, mas sabem o que mais, que se lixe! Perdido por 10, perdido por mil, vou fazer o programa de turista sim, vou fazer um safari de jipe e dormir numa resort.

Estava certo, os preços não são nada amigos mas a qualidade compensa. Piscina, belo jantar, cerveja geladinha tornaram o meu fim de dia bastante agradável devo confessar.

De manhã cedinho parto para um game drive na enorme reserva que em mais de 22.000kms2 alberga tudo o que é bicho local. Sou o unico, só eu e um motorista magrinho com oculos fundo de garrafa. Hum se calhar isto não foi uma boa ideia...

Mas foi, ví tudo o que havia para ver, apenas o leopardo não se mostrou, mas tambem já era pedir demais ver um só num dia de safari. Já pela fresquinha meto-me ao caminho, um amigo meu alentejano diz sempre que a hora mais saborosa para rodar de moto é com a luz do fim de tarde e eu concordo.

A luz é mais limpa, mais contrastante e embeleza ainda mais a paisagem. Sigo pelo norte de Etosha, contornando todo o parque até perto de Opowo, a capital do território Himba. Esta etnia é famosa mundialmente pelas suas mulheres vermelhas. Conseguem essa côr graças a uma mistura de manteiga e de ervas locais que para alem de as embelezar tambem as deixa perfumadas, as mulheres Himba nunca tomam banho mas apesar disso o seu cheiro é agradável, parecido com alfazema.

Encontrar Himbas era um dos objectivos desta viagem, tenho lido algo sobre eles e os seus hábitos e uma das outras caracteristicas que soube é não gostam de ser fotografados. Recorro por isso a um pequeno truque, entrego a camara a um deles e digo como funciona e deixa ver no que dá.

Com a confiança ganha e com a compra de um colar lá ganhei a minha autorização para fotografar à vontade e sem exagerar fiz mais alguns retratos.

A tez vermelha e os cabelos em rastas coberto pela amalgama ocre dão lhes um ar extraordináriamente exótico e bonito. O homem Himba só tem uma função, mandar, as mulheres fazem tudo o resto nesta etnia singular.

Atalhei para Sul, o objectivo era chegar à boca do deserto da Namibia, onde termina a savana e começa a areia. O atalho retirou-me definitivamente das vias principais e do asfalto, daqui para a frente só gravel roads... e que gravel roads. Autenticas auto-estradas de terra onde podemos abrir a goela aos carburadores...

Mas é preciso sempre muita atenção porque a qualquer momento algo pode atravessar a estrada...

e quando digo qualquer coisa é qualquer coisa mesmo...esta acabou de atravessar a estrada na minha frente.

No segundo susto abrandei e resolvi ser mais cauteloso, a pista tambem piorou de estado e começou a ter mais zonas de areia fofa, terreno em que a Lady finalmente provou as suas capacidades, aqui é que ela se sente bem.

Cheguei exausto mas bastante satisfeito, vou dormir num chalet à sombra de um gigante monolito num hostel bem na entrada do grande deserto do Namib. Sabem um dia perfeito? Daqueles em que corre tudo bem? Foi hoje! Inté!
